Editorial de Abril 2026

A tristeza de trabalhar com os Organismos Internacionais, ONGs Estrangeiras e com o Governo em programas de Emergência

 

O primeiro programa da KULIMA de apoio à emergência começou no ano de 1984, com o suporte diversificado a 30.000 deslocados da guerra civil em Vilankulo, resolvendo para eles a necessidade de abrigo, o abastecimento de água potável, o arranque das atividades de produção, a construção de um centro polivalente de formação comunitária, o suporte alimentar e a eliminação do conceito de órfão no seio das comunidades beneficiárias, com a integração nas famílias acolhedoras. O programa durou três anos, mas logo depois qualquer rasto de pobreza e de pedintes acabou. A região manifestou uma capacidade de crescimento muito saudável e sustentável!

A confiança dos doadores, da Embaixada da Alemanha e sobretudo da União Europeia foi grande e muito atenta, seja do lado financeiro, assim como do lado da atenção aos resultados tangíveis dos programas que executamos.

Seguiram outros programas de emergência, sendo o maior, que engajou todas as forças da KULIMA, a resposta à emergência do ano 2000, em que, pelo mesmo período de tempo, nos foi pedido orientar o processo de reconstrução e de reabilitação, tanto em Gaza como na Beira, Sofala e na cidade da Matola. O apoio e a confiança da FAO e dos governos locais foram super-excelentes! Conseguimos, com a integração de 25 ONGs internacionais e nacionais, responder a todas as necessidades manifestadas pelas comunidades aflitas pelos desastres, engajando os mesmos deslocados em todas as atividades, construindo casas em lugares seguros, assegurando a saúde e a educação, apoiando as organizações femininas e construindo mini-redes de abastecimento de água. Em suma, a sociedade civil soube responder com força e credibilidade às necessidades das comunidades aflitas.

E assim em diante, até à formalização e constituição do INGC, que depois mudou para INGD, com a forte presença incisiva das ONGs internacionais e dos organismos internacionais, que passaram a assumir com força as emergências sucessivas, organizando uma série de clusters e escritórios de suporte. Uma montanha de burocracia!

Nada a contradizer quanto à capacidade da estrutura do Governo, que sentimos como necessária perante o aumento dos desastres naturais em Moçambique. Nada a contradizer quanto à positividade e capacidade de todas as organizações internacionais... mas a confiança no poder e na capacidade das ONGs nacionais foi diminuindo e as mesmas tornaram-se “moleques” das grandes, que perante os doadores foram vistas como honestas e capacitadas a operar com fundos externos!

Nisso, surge o grande desânimo que domina todas as ONGs nacionais, especialistas em responder à emergência, com uma vontade sincera de encontrar formas de apoiar as aflições dos deslocados e refugiados, tendo uma forte empatia para que tudo volte a uma vida serena e construtiva.

Infelizmente, o Governo está burocratizado e sente-se superior e capacitado para responder a tudo o que pode acontecer... fala de formas preventivas, mas são somente palavras e vontades, enquanto a forma burocrática prevalece e todos os processos devem ser canalizados conforme os seus parâmetros. Qualquer ação feita fora dos seus quadros mentais fica castigada e anulada!

A colaboração entre o INGD e a sociedade civil moçambicana mantém-se um sonho, apesar dos bons apelos e vontades manifestadas.

A emergência implica uma resposta imediata e eficaz... mas nada disso acontece. As visitas dos dirigentes do Governo, as licenças necessárias para operar, adiam continuamente a ação urgente por executar.

Os pobres podem esperar perante uma visita dos dirigentes do Governo, e tudo se adia na resposta à emergência, sendo que as necessidades se tornam secundárias, dando-se prioridade às visitas governamentais. Como pode acontecer isso? A burocracia enjoa e mata... e deve ser combatida com força!

Infelizmente, acontece também, num parâmetro diferente, com as ONGs internacionais e os organismos internacionais que financiam os programas.

A grande preocupação é aparecer ligados a todas as orientações dos doadores, respeitando todas as suas regras, sem um mínimo de ânimo ou de empatia sobre as condições em que vivem as populações afetadas.

A grande máquina deles é demonstrar capacidade financeira perante os doadores, com grande preocupação com a visibilidade, sendo eles os financiadores e todos devendo saber que são eles que financiam.

A grande preocupação do processo financeiro é prioritária, sem permitir nenhuma margem para rever modificações de acordo com a realidade do terreno; datas inflexíveis dos programas, preparadas meses antes, mesmo com visíveis mudanças no terreno, mas com a obrigação de realizar o previsto numa proposta muitas vezes desatualizada; a grande preocupação em sermos especialistas de PSEA sem cometer nenhum erro nesse sentido.

O importante é executar, gastar o dinheiro segundo as regras... esconder qualquer processo financeiro deles, que sustenta uma máquina super cara... O reflexo na comunidade é praticamente limitado ou quase nulo!

Tudo isso provoca desânimo em todos nós, em todas as organizações da sociedade civil moçambicana... e a vontade é de mandar tudo para o diabo com todos os compromissos assumidos! Se não fosse por causa das pessoas que sofrem... não deveríamos prestar a atenção exigida nem o serviço prestado!

É isso mesmo.

Qual é a nossa expertise?

Devemos encarar as regras da cooperação internacional com toda a seriedade e profissionalismo possível, sem descuidar, porém, dos sentimentos que temos e da grande vontade de apoiar as famílias que necessitam do nosso apoio!

Devemos saber engolir!!! Um dia, todas as declarações das Nações Unidas e das ONGs internacionais, de que toda a confiança deve ser colocada nas ONGs nacionais, vão tornar-se realidade, e as ONGs internacionais voltarão a ser apenas de apoio técnico e de garantia administrativa.

 

O sentimento de serviço está nas nossas mãos e devemos sempre valorizá-lo!

_____________________________________________________

Um abraço forte, 

Domenico Liuzzi, 

Director Nacional da KULIMA. 

LegetøjBabytilbehørLegetøj og Børnetøj